01 agosto, 2010

OS CAÇADORES E O ELEFANTE

Os caçadores e o elefante
23/07/10 ImprimirImprimir   TopoVoltar

Demétrio Magnoli (*)

Dois dias atrás, no meio da tarde, em cerimônia no Palácio do Itamaraty, Lula sancionou a primeira lei racial da História do Brasil. São 65 artigos, esparramados em 14 páginas, escritos com o propósito de anular o artigo 5.º da Constituição federal, que começa com as seguintes palavras: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza." O conjunto leva o título de Estatuto da Igualdade Racial, uma construção incongruente na qual se associa o princípio da igualdade ao mito da raça, que veicula a ideia de uma desigualdade essencial e, portanto, insuperável.

O texto anticonstitucional, aprovado em 16 de junho por um acordo no Senado, é uma versão esvaziada do projeto original. No acordo parlamentar suprimiram-se as disposições que instituíam cotas raciais nas universidades, no serviço público, no mercado de trabalho e nas produções audiovisuais. Pateticamente, em todos os lugares, exceto no título, o termo "raça" foi substituído pela palavra "etnia", empregada como sinônimo. Eliminou-se ainda a cláusula que asseguraria participação nos orçamentos públicos para os "conselhos de promoção da igualdade étnica", órgãos a serem constituídos paritariamente nas administrações federal, estaduais e municipais por representantes dos governos e de ONGs do movimento negro.

Mas o que restou é a declaração de princípios do racialismo. A lei define uma coletividade racial estatal: a "população negra", isto é, "o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas ou pardas". Dessa definição decorrem uma descrição racial do Brasil, que se dividiria nos grupos polares "branco" e "negro", e a supressão oficial das múltiplas identidades intermediárias expressas censitariamente na categoria "pardos". Implicitamente, fica cassado o direito de autodeclaração de cor/raça, pois o poder público se arroga a prerrogativa de ignorar a vontade do declarante, colando-lhe um rótulo racial compulsório. O texto funciona como plataforma para a edificação de um Estado racial, uma meta apontada no artigo 4.º, que prevê a adoção de políticas raciais de ação afirmativa e a "modificação das estruturas institucionais do Estado" para a "superação das desigualdades étnicas".

A fantasia que sustenta a nova lei consiste na visão do Brasil como uma confederação de nações-raças. Nessa confederação o princípio da igualdade deixaria de ser aplicado aos indivíduos, convertendo-se numa regra de coexistência entre coletividades raciais. Os cidadãos perdem o estatuto de sujeitos de direitos, transferindo-o para as coletividades raciais. Se o Poder Judiciário se curvar ao esbulho constitucional, estudantes ou trabalhadores da cor "errada" não poderão apelar contra o tratamento desigual no acesso à universidade ou a empregos arguindo o princípio da igualdade perante a lei, pois terão sido rebaixados à condição de componentes de um grupo racial.

Nos termos do estatuto racial, que é um estatuto de desigualdade, a "população negra" emerge como uma nação separada dentro do Brasil. O capítulo I fabrica direitos específicos para essa nação-raça no campo da saúde pública; o capítulo II, nos campos da educação, da cultura, do esporte e do lazer; o capítulo IV, nas esferas do acesso à terra e à moradia; o capítulo V, na esfera do mercado de trabalho; o capítulo VI, no terreno dos meios de comunicação. O pensamento racial imagina a África como pátria da "raça negra". A nova lei enxerga a "população negra" como uma nação diaspórica: um pedaço da África no exílio das Américas. O capítulo III determina uma proteção estatal particular para as "religiões de matriz africana".

A supressão do financiamento público compulsório para os "conselhos de promoção da igualdade étnica" e dos incontáveis programas de cotas raciais na lei aprovada pelo Senado refletiu, limitada e parcialmente, o movimento de opinião pública contra a racialização do Estado brasileiro. Uma vertente das ONGs racialistas interpretou o resultado como uma derrota absoluta - e pediu que o presidente não sancionasse o texto esvaziado. Surgiram até vozes solicitando uma consulta plebiscitária sobre o tema racial, algo que, infelizmente, não se fará.

O Ministério racial, que atende pela sigla enganosa de Seppir, entregou-se à missão de alinhar sua base na defesa do "estatuto possível". Para tanto reuniu pronunciamentos de arautos do racialismo, como o antropólogo Kabengele Munanga, uma figura que chegou a classificar os mulatos como "seres naturalmente ambivalentes", cuja libertação dependeria de uma opção política pelo pertencimento ao grupo dos "brancos" ou ao dos "negros". Na sua manifestação o antropólogo narrou uma fábula sobre os caçadores mbutis, da África Central, denominados pigmeus na época da expansão imperial europeia.

Os caçadores de Munanga almejam abater um elefante, mas voltam para a aldeia com apenas três antílopes, "cuja carne cobriria necessidades de poucos dias". As mulheres e crianças, frustradas, contentam-se com tão pouco e não culpam os caçadores, mas Mulimo, deus da caça, a divindade desse povo monoteísta. Os caçadores voltarão à savana e, um dia, trarão o elefante.

A fábula é apropriada, tanto pelo seu sentido contextual como pelas metáforas que mobiliza. Ela remete a um povo tradicional, fechado nas suas referências culturais, que serviria como inspiração para a imaginária nação-raça diaspórica dos "afro-brasileiros". Os caçadores simbolizam as lideranças racialistas, que já anunciam a intenção de usar o estatuto racial para instituir, por meio de normas infralegais, os programas de cotas rejeitados no Senado. O elefante representa o Estado racial completo, com fartas verbas públicas para sustentar uma burocracia constituída pelos próprios racialistas e dedicada à distribuição de privilégios.

Munanga não falou das guerras étnicas na África Central. É que o assunto perturba Mulimo e prejudica a caçada.

Demétrio Magnoli , sociólogo, é autor de "Uma Gota de Sangue - História do Pensamento Racial" (São Paulo, Contexto, 2009). O artigo foi publicado originalmente pelo jornal O Estado de São Paulo.

 Nota do Editor:


Orlando Villas Boas denunciou há anos a ocupação das terras Yanomamis e suas funestas consequências que hoje vemos na "Raposa Terra do Sol". Agora cria-se uma dissidência com os negros. A Constituição brasileira está sendo usada como papel higiênico por grupos cujas intenções não são claras, para alguns, mas de consequências perfeitamente previsíveis e indesejáveis para o CIDADÃO BRASILEIRO (Seja de que cor, raça, religião, credo ou não ). A Certidão de nascimento que é fornecida a cada um deles é exatamente igual em seus termos. Não me consta que a população alvo esteja interessada exatamente nisto. 
SOMOS, TODOS, BRASILEIROS E NÃO TEMOS CÔR OU RAÇA!!!
Pergunto: A QUEM INTERESSA e POR QUÊ? 


Sergio Augusto Sempé

20 abril, 2010

Os abusos de poder de Lula

17 de abril de 2010 | 0h 00
JOSÉ ÁLVARO MOISÉS - O Estado de S.Paulo
Existe relação entre a posição do governo quanto aos perseguidos políticos de Cuba, os desrespeitos do presidente à legislação na campanha eleitoral e a irresponsabilidade com que ele e outras autoridades públicas reagiram às catástrofes e mais de 250 mortes no Rio de Janeiro e em Niterói?
Nas últimas duas décadas o Brasil reconquistou o regime democrático. Não está em questão se a democracia existe, mas a sua qualidade. Os escândalos de corrupção, as tentativas de cerceamento da liberdade de imprensa e o discutível desempenho do Congresso Nacional mostram que a consolidação da democracia não depende apenas de votar e escolher governos.
A democracia é mais do que isso. Ela se baseia na soberania popular para ser efetiva e depende de que as instituições que previnem o abuso de poder e asseguram o equilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário funcionem a contento, sem sofrer ameaças veladas ou não de governantes ou de seus competidores. Não basta ter uma Constituição para garantir o império da lei, a vigência de direitos individuais e sociais e a obrigação dos governantes de prestar contas de suas ações e se responsabilizarem por elas.
O papel dos líderes que se dizem democratas é essencial, pois eles não são apenas mandatários de cargos administrativos, têm de dar o exemplo de correção e probidade no trato dos interesses públicos e, diante das incertezas próprias da democracia, têm o dever de orientar e educar os cidadãos para respeitarem a lei e as decisões coletivas, conviver com o pluralismo político e aceitar que, além da maioria, as minorias também têm direitos - princípios que distinguem o regime democrático de suas alternativas.
Atualmente, essas qualidades de liderança estão em falta no Brasil. A despeito de seus méritos, como manter a estabilidade econômica e ampliar as políticas sociais de seu antecessor, Lula virou as costas para valores democráticos fundamentais, revelando ao final de dois mandatos outros aspectos de sua personalidade política. Supõe às vezes estar acima da lei, burla o princípio de igualdade política e mistifica a crença dos eleitores de baixa renda, condenados a baixos níveis de educação, por isso mesmo menos críticos diante de quem usa o prestígio da Presidência para fazer crer que é o único autor dos avanços recentes do País.
No caso de Cuba, em vez de reconhecerem a opressão aos perseguidos políticos do regime e a ofensa a direitos assegurados pela Carta da ONU, Lula e os seus se solidarizaram com os dirigentes cubanos que arbitram autoritariamente sobre a vida dos perseguidos do regime, debochando do sentido político da greve de fome como forma de protesto. Lula desqualificou a sua própria experiência na luta contra o regime militar e igualou essa luta à ação de criminosos comuns; ofendeu milhares de perseguidos e torturados no mundo inteiro e gente de seu governo que sofreu perseguição no passado. O silêncio ou a abstenção do governo brasileiro em votações na ONU destinadas a condenar o desrespeito aos direitos humanos na Coreia do Norte, no Irã, no Sudão, no Congo e no Sri Lanka, ou a tolerância à destruição da democracia na Venezuela de Chávez, iluminam outros lados do quadro.
Nesses casos, Lula deixou de lado a posição majoritária dos brasileiros a favor da democracia verificada em pesquisas de opinião. Na campanha por sua candidata à Presidência, em flagrante desrespeito às leis eleitorais, tem se utilizado dos benefícios do cargo há mais de dois anos para fraudar o princípio de igualdade política. Multado pela Justiça Eleitoral, desqualificou as penalidades, convidou o público a debochar das regras e deu a entender que, diferente dos outros cidadãos, despreza as exigências da legislação. A repercussão negativa o levou a pedir cuidado aos ministros, conclamando-os a serem republicanos. Mas o embuste é flagrante - senão a ignorância de Lula quanto ao significado do conceito de res-pública -,pois antes e depois da advertência não se controlou em eventos e inaugurações oficiais, publicizando a sua candidata.
A indiferença de Lula diante dos mecanismos de controle dos Poderes republicanos é evidente. Seu governo desconhece o conceito de accountability, como ficou evidente no caso do mensalão e dos desmandos de José Sarney. Mais dramática ainda foi sua atitude diante das catástrofes no Rio de Janeiro e em Niterói. Primeiro, apelou aos céus diante das chuvas; depois, anunciou a liberação de R$ 200 milhões para ações de emergência e, finalmente, quando veio a público o relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) mostrando que o Ministério da Integração Nacional liberou, em dois anos, mais de 64% de recursos para emergências à Bahia do ex-ministro Geddel Vieira Lima, e menos de 1% para o Rio de Janeiro, Lula chamou o relatório de "leviano".
Não é a primeira vez que ele desqualifica as decisões do TCU. Em mais de uma ocasião, quando gastos indevidos foram identificados pelo tribunal, o presidente se comportou como se não tivesse obrigação de dar explicações ao País. Até agora, nem ele nem seu ex-ministro apresentaram os critérios usados na distribuição dos recursos emergenciais. Ademais, em oito anos de governo, Lula parece não se ter dado conta de que ocupações urbanas de risco não se resolvem com medidas de emergência. Mas, ao qualificar de "levianas" as críticas do tribunal, deu razão a autoridades como o prefeito de Niterói, que, após vários mandatos à frente da cidade, confessou desconhecer os laudos técnicos que condenaram a urbanização do lixão do Morro do Bumba. Lula abusa do poder, rebaixa a qualidade da democracia e, pior, estimula outras autoridades a fazerem o mesmo.
É PROFESSOR DE CIÊNCIA POLÍTICA E DIRETOR DO NÚCLEO DE PESQUISA DE POLÍTICAS PÚBLICAS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

27 novembro, 2009

EDITORIAL

Causa espanto, nos corações apaziguados, a voracidade com que se ataca a imprensa no Brasil últimamente, haja vista o que publicamos na postagem anterior e as reiteradas tentativas de parlamentares de aprovar dispositivos que mantenham submissos aqueles que se preocupam em noticiar fatos.

A  Imprensa não gera fatos, os noticía!

Maior é o espanto quando nos deparamos com parlamentares e outras autoridades que há bem pouco tempo, lutavam pelo direito de dizer o que pensavam e hoje postulam anistias regadas a polpudas indenizações pagas com dinheiro público, por terem, em passado próximo, até mesmo cometido atentados, sequestros e coisas que tais.

Quem lutou por ideología que se contente com ela, vitoriosa ou não, ou a intenção em ambas as hipóteses era apenas ascender ao poder para locupletar-se a sí e aos seus acólitos?

Um grande jornal de São Paulo permanece, há tempos, proibido de citar nomes de pessoas malcheirosamente notórias no cenário político brasileiro!

Assim, com pau-de-dois-bicos, é que se pretende manipular interêsses particulares em detrimento do interêsse público.

Afinal, quais os segredos destas personalidades, por quê tem mêdo da exposição pública? - o conteúdo da publicação não foi contestado, o que é ainda mais curioso...

Os fatos permanecem na mídia e na memória de quem não se deixa cabrestear.

Estes mesmos senhores que governam por "medidas provisórias" criticam a ditadura militar, recebem oficialmente personalidades como o raivoso  presidente de um país oriental onde não são respeitados os direitos humanos e a lisura do voto popular, protelam a extradição de criminosos internacionais, dando-lhes guarida mesmo ao arrepio do ordenamento jurídico, não respeitam decisões judiciais - veja-se a questão dos precatórios - colocando a Justiça de joelhos diante dos olhos de todos, acobertam  e recebem lideranças de milícias campesinas, desarmam o cidadão e financiam esbulhadores do patrimônio alheio, entregam o patrimônio público covardemente a chefetes "amigos", reduzindo a soberanía nacional à total inexistência -( Episódios "Bolívia" , "Paraguai", etc...etc...)

Mas, ao cobrar impostos aos cidadãos o fazem com voracidade, tomando , com velocidade supersônica os seus bens, até mesmo privando-lhes do direito à sobrevivência por apossarem-se de seu instrumento de trabalho.
Gostaría de ver a mesma velocidade e presteza no pagamento de aposentadorias decentes à quem deu seu suor e seu sangue para formar o patrimônio moral e material desta amada pátria, a quem se lhe prometeu algo em troca do seu dinheiro e  nada ou pouco se lhe devolve e sempre, obrigando o cidadão a pleitear em juízo o que é seu de direito, anos de penúria. Estes senhores esquecem que por eles, os cidadãos, existem os seus cargos e o estado.

As Leis mudam ao sabor do vento, da noite para o dia, jamais para beneficiar, mesmo que para isto seja necessário enganar o tempo atrasando o relógio do parlamento, como se até mesmo o Universo estivesse ao alcance de seu arbítrio. Sería a "Lei da Relatividade Parlamentar?".

Há uma Lei para nós e outra para êles, a começar pelas malcheirosas imunidades parlamentares que não servem para defender o livre exercício de opinião, mas para acobertar mediante mordaça, fatos que fariam arrepiar a um ovo.

           Vivemos uma CRISE MORAL de espantosas proporções e funestas consequências!

          "Todos são iguais perante a Lei, apenas alguns são mais iguais..."

            Brasileiros, cuidado, o gato subiu no telhado!

                                                                                                              O Editor
      

EM NOME DA LIBERDADE DE IMPRENSA


Em nome da liberdade de imprensa

27/11/09
Jayme Copstein
Recente decisão judicial condenou o jornal “JÁ”, editado em Porto Alegre pelo jornalista Elmar Bones, a pagar indenização por danos morais, em decorrência de reportagem publicada sobre o assassinato de um dono de boate, praticado em circunstâncias que a imprensa da capital gaúcha divulgou com base em registros policiais.

Familiares da pessoa em questão foram à Justiça, apresentando queixa-crime contra o editor Elmar Bones e reivindicando indenização, alegando danos morais sofridos com a publicação do noticiário. Concluídos os dois processos na Primeira Instância, o Juízo Penal absolveu o jornalista, enquanto o Juízo Cível condenou sua empresa a multa, cujo montante a inviabiliza financeiramente.

Ora, se o jornal “JÁ” não adulterou os fatos ao relatá-los – como reconheceu o Juízo Criminal ao absolver seu editor – convenhamos que o desgosto decorrente dos fatos desagradáveis é anterior à publicação da notícia. Desconsiderar tal cronologia é borrar a fronteira que separa a censura da liberdade de imprensa, ao subjugar uma garantia constitucional a critérios subjetivos.

Após deliberar em sessão do seu Conselho Deliberativo, a Associação Riograndense de Imprensa distribuiu ontem nota, expressando sua desconformidade. É aqui reproduzida na íntegra, em solidariedade ao jornalista Elmar Bones e ao jornal “JÁ” e também como protesto, em nome da liberdade de imprensa.

Associação Riograndense de Imprensa

Nota Oficial

“O Conselho Deliberativo e a Diretoria Executiva da Riograndense Associação de Imprensa manifestam sua preocupação com a recente decisão judicial, impondo ao jornal “JÁ” indenização que ultrapassa em muito à capacidade financeira da empresa que o edita. Ao mesmo tempo, expressam desconformidade com o que julgam extravazar os limites da reparação por supostos danos morais para se tornar a punição que a própria Justiça Criminal negou em processo paralelo.

À Associação Riograndense de Imprensa não cabe discutir o mérito da decisão, mas ressalvar sua estranheza por incidir sobre fatos e feitos tornados públicos pelos registros policiais. Se desgosto causam aos seus protagonistas diretos ou indiretos, ocorreram antes de serem noticiados. Melhor dito, quando foram praticados.

Ao impor ao jornal uma indenização que ultrapassa sua capacidade de quitá-la, afora defini-lo como alvo para alimentar vinganças, a Justiça provoca a sua morte, ressuscitando penas civis que se julgavam extintas com a revogação das Ordenações do Reino.”

16 novembro, 2009

QUANDO CHORO MEU PAÍS



Quando olho meu Brasil, tão vasto em território e tão pobre em amor dos seus filhos;
Quando o vejo tão rico de sol, vida e luz e tantos dos seus filhos vivendo em condições precárias, onde lhes falecem o direito à saúde do corpo e da alma, pois que carecem investimentos governamentais específicos;
Quando contemplo as manhãs brilhantes, gritando esperança, e observo os interesses de poucos sobrepujando o bem-estar de toda uma nação;
Quando me dou conta de que o país é pleno de riquezas minerais, vegetais, hídricas, que são depreciadas;
Quando percebo que há filhos de extraordinários dotes intelectuais, artísticos, do coração, nesta terra, e os vejo abandonarem estas fronteiras para conseguirem seu lugar ao sol em distantes terras, eu choro.
Choro por saber que este país poderia ser o Eldorado dos milhões de seres que aqui vivem.
Lamento ver criaturas esfarrapadas, quando poderiam estar vestindo a camisa do país, no verdadeiro sentido;
Lamento ouvir queixumes, críticas e desaires a respeito de uma terra tão promissora e generosa.
Nesse dia de dores, coloco o hino pátrio para ouvir, bem alto. E penso como seria bom se ele fosse mais ouvido, mais cantado, mais pensado, mais vivido.
E, enquanto os versos musicais se sucedem, enaltecendo a pátria-mãe gentil, seus dotes físicos, a riqueza sem par destas matas, penso que é tempo de nós, brasileiros, despertarmos.
É hora de sacudir a poeira do comodismo e lutar por um país mais justo, onde seus filhos vivam em plenitude.
Onde seus filhos nasçam, com a certeza de que a mãe gentil lhes dará abrigo ao corpo, alimento ao Espírito.
Um país onde se privilegie a instrução, não como algo demagógico, para ser acionado em momentos de estratégia política, mas sim com o objetivo de ilustrar as mentes privilegiadas que somos todos, na qualidade de Espíritos imortais.
Um país onde se possa ostentar não somente as valiosas medalhas conquistadas no atletismo, no esporte, mas igualmente se coloque no peito dos que o servem com dedicação, as medalhas de ouro da gratidão.
Um país onde Ordem e Progresso não sejam somente uma legenda na bandeira.
Mas, sobretudo, uma meta gravada no coração de cada filho seu, nascido em sua terra ou adotado de distantes paragens.
Tudo isso não é utopia.
É possível no hoje e no agora. Será suficiente que cada um de nós ponha em prática sua condição de cidadão consciente dos seus deveres, de forma prioritária.
Estudar, trabalhar, mostrando que filho desta terra, legítimo herdeiro das suas riquezas, somente é aquele que a dignifica com inteligência e suor.
* * *
Amemos nosso país, investindo na cultura, no bem, na justiça.
Orgulhemo-nos do verde da esperança, do amarelo que traduz a intelectualidade, do azul da harmonia e do branco da paz.
Nesse dia, ufanemo-nos, cantando:
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Ó, pátria amada
Idolatrada...
És tu, Brasil.
Redação do Momento Espírita.
Em 16.11.2009.

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19 outubro, 2009

SIM, NÓS PODEMOS!

Sim, nós podemos!

(13.10.09)



Por Carlos Eugênio Giudice Paz,
advogado (OAB/RS nº 55.243)

No segundo após o anúncio de que o Brasil seria o país sede da Olimpíada de 2016 me dei conta que vivo num país muito, muito, muito rico.

Demorei 52 anos para perceber que aqueles miseráveis em fila de SUS, morrendo na fila dentro de um hospital, ou em infindáveis listas de espera de um transplante que podem salvar suas vidas ou dar uma sobrevida; que aqueles que não têm condições de comprar remédios caros ou raros que têm de buscar na Justiça ajuda para obtenção desses e que muitas vezes recebem um não, com a explicação de que não temos dinheiro para isso; que aqueles que necessitam de radioterapia, mas que não tem aparelhos para isso; enfim que todos esses que sofrem o nosso dia a dia não tem mais que aceitar, de forma resignada o que até agora lhes foi imposto.

Sim, nós podemos salvar essa gente! Sim, nós podemos pagar seus tratamentos, seus transplantes. Sim, nós podemos cumprir os nossos direitos que estão previstos na nossa Constituição que nos garantem saúde, educação e segurança!

Temos, ou achamos que podemos ter R$ 25,9 bilhões para ver gringo ganhar medalha. Não nos esqueçamos que a nossa experiência com o Pan nos provou que gastamos 1.589% acima do previsto.

Façam as contas em cima do que estamos esperando gastar na Copa! Sim, nós podemos senhores advogados, juízes, desembargadores e ministros responsabilizar a União pelas barbaridades na saúde, na educação e na segurança. Porque quem tem esse dinheiro todo para a Copa não tem direito a se esquivar nos foros, tribunais ou nas cortes supremas das ações de indignados cidadãos e consumidores.

Todos aqueles senhores alegres que foram defender no exterior o nosso próspero país são os avalistas de qualquer demanda contra a União. Todos eles eram fiadores da promessa do evento Rio 2016.

Não dá mais para se chocar com cenas de crianças sem escolas, várias turmas dentro de uma sala só, sem mesas ou cadeiras, ou mesmo sem água para beber. Ou de hospitais infectos, sem leitos, ou mesmo os novinhos, mas sem profissionais para atender. Ou ainda de gente que morre em assaltos todos os dias.

Temos de denunciar e responsabilizar a quem de direito. É hora de ação! Temos dinheiro e muito! Reparem que foi criado um imposto para salvar a saúde, sempre desviado de sua função. Que imposto foi criado para a Copa? Nenhum!

Sim, nos podemos exercer nossa cidadania e responsabilizar maus administradores que buscam nos holofotes e flashes iluminar as suas mentes.

Na olimpíada do bom senso, da coerência, da responsabilidade, da transparência e da correta administração, devemos dar - por ocasião da proposta do Rio 2016, para nosso governo e seus fiadores - a medalha de papelão!

(*) E.mail: drgiudicepaz@gmail.com


30 setembro, 2009

MORRER POR ZELAYA?

Morrer por Zelaya?
30/09/09 TopoTopo

Jayme Copstein

Quem deseja morrer por Zelaya? A pergunta absurda nasce de uma idiotice levantada por alguém nos bastidores do Governo, transpirada e por fim abafada prontamente pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, com a declaração peremptória de que o Brasil “não pretende intervir militarmente em Honduras”.

Durante todos esses anos, desde o fim da ditadura, redemocratizar significou para os patriotas de plantão sucatear as |Forças Armadas, como se a farda e não a insaciável fome de poder dos políticos fosse o obstáculo para normalizar a vida da Nação. Com alguns quartéis limitando o expediente à parte da tarde porque falta verba para o rancho, alguém falar em mandar tropas para a América Central é de rir.

O trágico em tudo é que há jornalista brasileiros brincando de correspondente de guerra, tentando impressionar leitores e ouvintes com as suas dificuldades de fazer a cobertura porque não conseguem entrar no prédio onde funcionava a nossa Embaixada. Funcionava,sim, hoje foi transformada em palanque de Manuel Zelaya, graças à trapalhada em que Marco Aurélio Garcia e seu obediente acólito, Celso Amorim, enfiaram Luiz Inácio Lula da Silva.

Seja qual for a evolução do quadro, as consequências para a imagem do Brasil são as mais desastrosas. Se Manuel Zelaya conseguir retornar à presidência, volta como ditador. A esta altura dos acontecimentos, excluindo-se uma improvável renúncia imediata de Roberto Micheletti para que o Judiciário assuma o poder, não há condições de se realizarem as eleições de novembro. O papel desempenhado pelo Itamaraty – sórdido, triste – terá sido o de contribuir para instalar uma ditadura na América Central.

Há, ainda, outra hipótese: que a crise hondurenha descambe para o confronto armado. Neste caso o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, terá deixado a marca da sua irresponsabilidade, manchando de sangue, como nenhum outro, a história brasileira.

A reprise

Flávio L escreve sobre “A Reprise”, coluna de ontem, em que é manifestada a falta de esperança em uma reforma política de fato. Repete sugestão que, de vez em quando, assoma entre os eleitores brasileiros e corre pela Internet: votar em branco ou anular o voto para protestar contra os corruptos.

Não duvido das boas intenções de Flávio nem de muitos dos que propagam este duplo equívoco.

Em primeiro lugar, voto em branco e voto nulo não anulam eleição. Apenas não são contados. Só existe uma possibilidade legal de se anular eleição no Brasil: fraude comprovada em mais de metade das urnas.

Segundo equívoco: deixando de votar em candidatos honestos para castigar os corruptos, o eleitor está castigando os candidatos honestos e recompensando os corruptos.

Vamos supor que ocorresse a hipótese impossível, por tão remota, que todos os eleitores anulassem seus votos e só os candidatos votassem em si mesmos. Todos chegariam empatados com um voto cada um. Assim mesmo a eleição teria validade e estariam eleitos os mais velhos, pois a idade é o critério para o desempate.

Será que as pessoas conseguem perceber a arapuca em que vão cair se derem ouvidos a esta sugestão?

E só para terminar: alguém já percebeu que, deixando de votar, para protestar contra Hugo Chaves, a oposição venezuelana lhe deu maioria absoluta no Congresso, permitindo mudar a Constituição e se perpetuar no poder? Alguém quer fazer isso no Brasil?

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12 agosto, 2008

OUTRA VEZ

12.08.2008
DESOBEDIÊNCIA CIVIL
por Ralph J. Hofmann
“Não é suficiente ser deixado em paz por um governo que pratica a corrupção sistemática e cobra impostos para fazer mal a seu próprio povo!” – Henry David Thoreau

Citei esta obra de Thoreau num artigo uns dois anos atrás, não me lembro em que contexto. Mas o assunto sempre volta no Brasil porque passam os anos e sempre que nossas autoridades têm a oportunidade de corrigir graves distorções constata-se que não existe no “mercado” dos dirigentes da nação qualquer centelha de generosidade e auto-sacrifício pelo bem maior da nação.

Esta manhã o que me leva a este comentário é a decisão de que, sim, os candidatos com processos, freqüentemente muitos processos, em andamento, tem direito a serem candidatos.

Isto significa a penalização do inocente para proteger os direitos do culpado. Isto num país onde se empurram os processos com a barriga até que sejam arquivados por decurso de prazo.

Creio que ao escrever o “Bill of Rights” e os documentos daí decorrentes. De onde derivam todas as constituições e declarações de direitos humanos, se visava com isto o direito à liberdade do indivíduo. Não seria mais possível um cacique ou um chefete local inferir uma culpa a um indivíduo sem provas razoáveis.

Trata-se, por exemplo, exagerando, do completo ridículo dos processos e fuzilamentos em Cuba no ano de 1959. Lembro-me de ver um jornal cinematográfico em que um oficial de Fulgêncio Batista era trazido para o estádio lotado. Um menino dentre a multidão gritava. – Ele matou meu pai. – Este simples grito na multidão servia para a condenação era o suficiente para que dez minutos depois o sujeito fosse encostado no “paredón” e fuzilado. Nós vimos isto. O governo de Cuba veiculava estes “tribunais”. Por séculos a justiça funcionou assim. Um desafeto podia acusar seu inimigo de alguma coisa e este seria executado, aprisionado, degredado ou escravizado nas galés sem muita investigação, sem se verificar as motivações do acusador, ou provas que apoiassem a acusação. E o reverso da moeda também era verdade. “Para os amigos: Tudo. Para os inimigos: Nada”.

Mas o direito a ser considerado inocente até prova em contrário não me parece ser cerceado se a pré-condição para ser eleito for vinculada a não ter processos em andamento. Afinal de contas, existe a condição de pessoas que potencialmente oferecem risco de fuga que são mantidas encarceradas enquanto aguardam julgamento, ou por representarem risco de fuga ou por, se culpadas, representarem uma ameaça à população. Claro, no Brasil o direito de “habeas corpus” tende a ser abusado no caso de réus abastados. Talvez porque não existam prisões decentes para manter pessoas acusadas e não condenadas em um ambiente com certa dignidade. Daí por que exista a ridícula norma de prisão especial para bacharéis.

Mas partir disto para autorizar um sujeito que tem processos em andamento a se candidatar a cargos eletivos, que por si só vem a escudá-lo de processos em cortes normais ou a postergar os processos para depois dos prazos de limitação já é liberalidade. Precisa haver uma cláusula “Chapeuzinho Vermelho”. Fica decidido que o Lobo Mau não pode ser tutor da menor Chapeuzinho nem de sua vetusta avó. A não ser que prove ser vegetariano.

Mas aqui se decide que o lobo pode inclusive correr solto entre redis de ovelhas servindo-se das mais gordinhas e apetitosas. Já o cão pastor fica preso numa corrente recebendo uma minguada ração e uma tigela de água.

Retornemos a Thoreau. Thoreau recusou-se a pagar um imposto “per capita” que o governo estabeleceu. Acabou preso. E ainda se recusava a recolher o tal imposto. O governo lhe ofereceu perdoar as dívidas passadas se pagasse o imposto corrente. Ele alegou que preferia ficar preso a pagar um imposto injusto para manter uma administração que considerava corrupta. O governo implorou que voltasse atrás. Ele continuou se negando. Finalmente, à sua revelia, seus amigos e parentes pagaram seus impostos (que a realidade eram apenas uma pequena quantia simbólica), à sua revelia para que fosse solto. E ele foi solto protestando. Dizia que era seu dever, naquele caso, praticar seu direito à desobediência civil permanecendo preso.

Sabemos o que aconteceria no Brasil. Se Thoreau estivesse aqui, o governo simplesmente fingiria que ele não existe. Fingiria que não pode ser encontrado. Fingiria que não tem provas contra ele. Para que arriscar virar a canoa. Assim também o governo pode fingir que seus nomeados para ministros de tribunais, ministros de estado são pessoas ilibadas, dignas de administrarem o país.

17 dezembro, 2006

DESOBEDIÊNCIA CIVIL

DESOBEDIÊNCIA CIVIL
15.12, 17h52
por Rodrigo Constantino

"There will never be a really free and enlightened State, until the State comes to recognize the individual as a higher and independent power, from which all its own power and authority are derived, and treats him accordingly”. (Henry David Thoreau)


Henry David Thoreau escreveu um livro chamado Desobediência Civil para protestar contra a guerra que os Estados Unidos realizavam contra o México em 1846. Thoreau influenciou bastante o pensamento liberal americano, e era um forte defensor da idéia que o melhor governo é aquele que governa menos, ou seja, que mais respeita as liberdades individuais. Durante a guerra, Thoreau preferiu ser preso a pagar seus impostos, já que ele entendia que estaria contribuindo para a guerra caso transferisse recursos para o governo. Ele tomou esta decisão de forma consciente, e se sentiu muito mais livre na cadeia que seus concidadãos soltos, que eram, na verdade, escravos e cúmplices de um governo injusto. Seria o mesmo que perguntarem se é preferível ir preso ou matar uma criança. Nesse caso extremo, a resposta parece óbvia, e a grande maioria optaria pela primeira alternativa. É muito parecido, apenas fica mais sutil perceber que seu dinheiro está contribuindo diretamente para todas as atrocidades que o governo comete, já que dinheiro não possui carimbo.

É impossível ver a notícia deste indecente aumento que o Congresso aprovou recentemente para os próprios deputados e não lembrar de Thoreau. O ultraje é flagrante, e um Congresso envolto em inúmeros escândalos parece rir da cara dos otários pagadores de impostos, que por eufemismo são chamados de contribuintes. O abuso é total, e os deputados ignoram completamente a opinião pública, já sabendo da curta memória dos eleitores e da completa impunidade nesse país. O salário direto de um deputado passará para quase R$ 25 mil mensais, num país onde a renda média do setor privado, que paga a conta, oscila perto de R$ 1 mil. O custo total com um deputado, somando todos os benefícios indiretos, fica na casa de meio milhão de reais por ano. Uma verdadeira fortuna! Isso para que os deputados brinquem de “mensalão” e “sanguessugas”, desviando bilhões do erário, sabendo que nada será punido. O corporativismo no Congresso é total. Os deputados brigam por poder, mas na hora de proteger a categoria, a união faz a força, e os otários pagam a conta. Essa conta irá aumentar, pelo efeito cascata dessa medida, em quase R$ 2 bilhões por ano. Brasília já é, de longe, a maior renda per capita do país. O governo, em nome da luta contra a desigualdade social, é o maior concentrador de renda que existe.

O povo virou servo e o Estado virou patrão, uma completa inversão dos valores. O dinheiro tomado na marra dos pagadores de impostos, que já soma 40% do PIB, não vai para as funções básicas do governo, como prover segurança, garantir o império das leis, e se for o caso, investir na educação básica, na saúde e em infra-estrutura. O dinheiro acaba, na verdade, no bolso dos políticos corruptos, no assistencialismo usado para a compra de votos, no financiamento de grupos criminosos como o MST, curiosamente chamados de “movimentos sociais”, no sustento de ONGs corruptas ou defensoras dos interesses dos próprios governantes, no “mensalão”, na compra de dossiês contra opositores, no suborno da mídia “chapa branca”, nos sindicatos poderosos etc. Enfim, uma classe toma o poder e passa a extorquir, ainda que legalmente, outra classe. A luta de classes, portanto, existe, mas diferente do que acreditava Marx, ela não se dá entre capitalista e proletários, mas entre pagadores e consumidores de impostos. O abuso de poder dos governantes é total, e o avanço sobre o bolso e as liberdades dos indivíduos é assustador. Quem de fato gera riqueza nesse país é assaltado diariamente, mas a espoliação é legal, ocorre à luz do dia, e por aquele que deveria justamente proteger a propriedade privada.

A sorte dos governantes é que o povo brasileiro é passivo demais, ao que tudo indica. Além disso, mostrou também pouca integridade moral nas últimas eleições, estabelecendo seu preço para vender a alma ao diabo, variando apenas na magnitude entre pobres e ricos. O que assusta é que a desgraça anunciada do país é infligida pelo próprio povo. A reação dificilmente será a de indignação verdadeira, salvo as raras e honrosas exceções. Provavelmente isso tudo estará esquecido nas próximas eleições, e o político que prometer um novo privilégio leva o voto. Os deputados sabem que não estão correndo grandes riscos, pois o pacato cidadão brasileiro não irá partir para a desobediência civil nem puni-los no voto que seja. Em outros lugares do mundo, pode ser que tamanho abuso por parte dos políticos acabasse em sangue, em linchamento público. Aqui, tudo acaba em pizza. Mas os perigos para o Estado de Direito no longo prazo são claros, pois cada vez o descrédito maior no Congresso poderá levar mais e mais pessoas a considerar que a existência do próprio se faz desnecessária. Um ambiente desses é propício para golpes autoritários. Estaremos então a um passo de uma ditadura, ainda que disfarçada de “democracia participativa”. Estamos enveredando por esta rota da servidão faz algum tempo...

E o que as pessoas íntegras e mais esclarecidas podem fazer diante deste sombrio cenário? Uma das alternativas, sem dúvida, é lutar, principalmente no campo das idéias, tentando mostrar o que está acontecendo de fato, e quem é o verdadeiro inimigo do indivíduo, o lobo em pele de cordeiro. Mas é uma luta desigual, que muitas vezes desanima. Outra opção, sem dúvida adotada por muitos, é simplesmente sair do país, e deixar que os parasitas tenham cada vez menos hospedeiros para explorar. Não parece o ideal, mas é impossível condenar quem assim faz. Por fim, uma alternativa mais radical e infelizmente cada vez mais tentadora é seguir o caminho de Thoreau, e partir para a desobediência civil. Não mais compactuar com a espoliação estatal, sonegar impostos, ignorar as tantas leis injustas desse país. Não é uma visão confortante, posto que situa-se próxima demais do caos anárquico. Mas infelizmente, parece ser o que os políticos estão incentivando e incitando, com tanto desrespeito aos pagadores de impostos do país. Espero que o mal maior possa ser evitado. Tenho minhas dúvidas...


http://rodrigoconstantino.blogspot.com

RECORDES

Jayme Copstein

Festejemos, irmãos: em Cachoeira do Sul acabam de descobrir um fóssil de 228 milhões de anos o que, segundo a Zero Hora, pode mudar a história dos dinossauros na face da Terra.
Pranteemos, irmãos. O Congresso brasileiro acaba de sacramentar mais uma indecência, dobrando sua remuneração. Daqui a 228 milhões de anos, os arqueólogos ao remexerem em ossadas, dirão que jamais houve na história do mundo políticos tão imorais quanto os do Brasil, e por isso jamais mudou o destino deste país.
Festejemos irmãos. Os arqueólogos só precisaram de meia dúzia de fragmentos de ossos, para concluir que o dinossauro descoberto era um dos elos perdidos entre formas mais primitivas e formas mais evoluídas da espécie.
Pranteemos, irmãos. A absolvição de praticamente todos os mensaleiros e sanguessugas são provas demasiadas que qualquer elo que acaso houvesse entre o “politicus brasiliensis” e o mínimo de decência que se exige de qualquer ser vivo, perdeu-se irrecuperavelmente, se é que existiu algum dia.
Festejemos, irmãos. Se a importância desta descoberta em Cacheira do Sul for confirmada, o Brasil vai para o Livro dos Recordes do Ginness como detentor do fóssil mais antigo de toda a história da humanidade.
Pranteemos, irmãos. Não se precisa mais de comprovação. Os números são eloqüentes: passando ganhar a quase 30 vezes o que percebe um congressista norte-americano e mais de 30 vezes o que ganha um parlamentar inglês, em um país onde a renda média da população é 15 vezes menor do que a dos habitantes dos Estádios Unidos ou da Inglaterra, já estamos no Guinness: trata-se do Congresso mais imoral da história do planeta.

posted by Blog do Jayme - www.copstein.blogspot.com

15 novembro, 2006

CENSURA

Qual o pior?
1)-Saber dizer o que se quer e não poder? 2)-Poder dizer o que se sabe e não querer? 3)-Querer dizer o que sabe e não poder? 4)-Poder dizer o que se quer e não saber? 5)-Saber dizer o que se pode e não querer? 6)-Querer dizer o que se pode e não saber?
================Geir Campos=====================

11 outubro, 2006

RETRATAÇÃO

RETRATAÇÃO

Metáforas fazem parte da crônica política. Já escrevi que as oposições contrataram Sherlock Holmes para investigar a participação de José Dirceu no mensalão. Contei a passagem do genial detetive por Brasília. Nem o ex-chefe da Casa Civil sentiu-se agravado, muito menos os descendentes de Connan Doyle preocuparam-se com o uso indevido do personagem.

Com freqüência, apelando para a ficção, costumo trazer à realidade nacional mortos ilustres como Getúlio Vargas, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, que comentam e até participam de lances conturbados da política. Para não falar na intromissão de Napoleão, Maquiavel, Alexandre “o Grande”, Pedro Álvares Cabral e personagens da História instalados pela minha parca imaginação nas avenidas e palácios da capital federal. Nenhum protesto, até agora.

Em 29 de agosto, enveredei pela mesma trilha, diante da desclassificação de Plutão de planeta para asteróide. Por conta da proliferação de ONGs fajutas mamando nas tetas do governo, uma delas, que a imprensa divulgara ser dirigida por um ex-líder sindicalista, imaginei outra, a "Sociedade dos Amigos de Plutão".

Ao descrever suas atividades, obviamente fictícias, não resisti à tentação de apresentá-la como da mesma forma presidida por líder sindical, suposto amigo do presidente, claro que inexistente, por isso jamais fulanizado. A ONG teria sede na Esplanada dos Ministérios e seus diretores empreenderiam farta e luxuosa viagem ao redor do mundo, pregando a imprescindível reabilitação de Plutão.

ESCLARECENDO DÚVIDAS

Simples metáfora, mas, reconheço, sem a caracterização explícita. Como no período eleitoral que agora se encerra, andam exasperadas as emoções, houve quem supusesse naquela crônica uma agressão ao PT, às lideranças sindicais, ao presidente e à Esplanada dos Ministérios. Penitencio-me, para que não haja dúvidas. A ONG "Sociedade dos Amigos de Plutão" não existe. Pelo menos, ainda não foi criada.

Para evitar a repetição de um problema que já relato, lembro a Lei de Imprensa, dispondo de uma figura denominada retratação. Quando, no mesmo espaço, na mesma página, um jornalista se retrata, reconhecendo o erro, cessa ou nem se inicia a respectiva ação penal. Por que esse cuidado? Porque, não faz um mês, o comitê de campanha de Geraldo Alckmin denunciou-me à Justiça Eleitoral como tendo ofendido o candidato, ao chamar de burra e ofensiva à inteligência nacional a estratégia de ficar agredindo Lula em vez de anunciar seus programas.

No TSE, em nome da liberdade de imprensa, o ministro-relator recomendou o arquivamento da ação, acompanhado em seguida pelo plenário. Seria no mínimo inusitado, na mesma eleição, ser processado pelos dois lados, mas faz tempo que de quatro em quatro anos a história se repete. Estará a virtude no meio?...
Próximo texto:
Análise Política Última Hora

Índice da edição - Ed. 511
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Esta é a íntegra da RETRATAÇÃO do jornalista Carlos Chagas. Como se não bastasse os que nada viram, ainda temos os que nos mostram a nossa cara de palhaços. Estão brincando demasiadamente com a opinião pública em nosso País. Verdade que uma população acovardada, cagona e desprovida de valores maiores, porque se os tivesse já teria tomado atitude drástica em relação a sucessão de escândalos (comprovados), merece que se brinque à tripa forra com a sua apatia, que se escarneça de alguém que beija quem lhe fustiga, no mais legítimo bate-que-eu-gosto. Chega de palhaçadas. Assim como é verdadeiro que necessitamos urgentemente de saneamento nas áreas que lidam com dinheiros públicos, também é verdade que se coloca a pique a credibilidade da boa imprensa, informativa ou não.
Os colegas do Sr. Carlos Chagas, que dizem?
Gostaram? - Isso engrandeceu a profissão nobre e necessária do bom jornalismo? À quem aproveita atitudes como a deste cidadão que, apesar da ressalva, coloca sérias dúvidas sobre as ONG’s que trabalham e lutam com imensas dificuldades e aonde os “saques” são perpetrados contra os bolsos dos seus dirigentes e associados que tem a ousadia de tentar suprir o Estado? E este, onde está? É mais do que claro que a existência das ONG’s deve-se à desfaçatez dos governos que não cumprem com as suas obrigações, assumidas ao cobrar taxas e impostos COMO JAMAIS SE VIU NA HISTÓRIA DESTE PAÍS, para gaudio de alguns. Estado que se omite, que nada sabe e nada vê, mas que termina, por vias muito – ou nem tanto – tortuosas, se locupletando senão direta pelo menos indiretamente, colhendo frutos através de “partidos”, “sindicatos” “et caterva”. E quando deve não cumpre seus compromissos nem mesmo “sob vara”. Até o judiciário parece ter se submetido a humilhação de ter seus mandados rasgados e suas ordens descumpridas. Para não ter de ir muito longe, falemos de precatórias...
Custa-me crer que ninguém reaja – temo pelo que poderá estar nos esperando. Triste país onde não se escolhe o melhor, mas o menos pior, por voto obrigatório, onde a proporcionalidade elege indivíduos que você não sabe quem é e, se soubesse, jamais nele votaria – será? Quando um cidadão ex-presidente do Senado e atual “preeminente figura da República” se elege reiteradamente calcado em um estelionato eleitoral, por um Estado em que não reside e quem sabe até não conheça. Mas, segundo declara a Justiça Eleitoral lá tem domicílio. Todos vêem, todos sabem e nada fazem... Quando eu era menino muitas vezes tive a minha frente a figura dos três macaquinhos. E este cidadão “se acha” grande reserva moral da Pátria. Elejam quem quiserem, com ou sem escrúpulos, nem mesmo as moscas trocam...e, quando trocam, logo são reconduzidas pelo voto.
Faz-se urgente e inadiável, sob pena de coisas bem piores, que se reveja o nosso sistema eleitoral.
Voto obrigatório só serve ao cabresto, à vilania, à exploração da miséria que os próprios governos geram e alimentam com “cestas” para lhes servirem de pasto a cada quatro anos.
Massa de manobra a custa de um pedaço de terra que logo ali será vendido, porque ou nada sabem da profissão, ou não tem o devido respaldo creditício e técnico ou ainda cujo inconfessável objetivo é a formação de um braço armado (pelo desarmamento do cidadão nos seus mais comezinhos direitos). Gosto imensamente de George Orwell, especialmente quando demonstra em “A Revolução dos Bichos” que todos são iguais, mas que alguns são, definitivamente, mais iguais.
Trabalhamos para suportar pinóquios a nos entulharem com suas bravatas e burramente, vermos, com a mais legítima cara-de-babaca e pagar em impostos e publicidades este festival de sandices que nos empurram pelo rádio e televisão nos subtraindo o direito à diversão e a boa informação. E isto tudo é dito democrático.
*
O povo brasileiro é bom demais para merecer coisas assim.
*
Preocupa-me, entretanto, o silêncio, a apatia – o povo tocado como gado para o abatedouro, ao som do berrante. Pode ser prenúncio de grandes tempestades, como sói acontecer... Lembro-me, freqüentemente, de Shakespeare em Júlio César – mas será demais para algumas antenas...?. Pelo sim, pelo não, recomendo a atenta leitura – aproveitem o horário eleitoral!
*


O gato subiu no telhado.



Sergio Augusto Sempé – 11.10.2006

08 outubro, 2006

PREVISÔES

Previsões.
Juremir Machado da Silva.
Agora eu não duvido mais: o Rio Grande do Sul é realmente
o estado mais politizado do país. Além de ser o
mais culto, o mais sofisticado e o menos conservador. A
prova disso é a eleição de Paulo Borges como o mais votado
para a Assembléia Legislativa. Não poderia ser mais
adequado. Na sua biografia, há um verdadeiro feito político:
a apresentação da previsão do tempo num programa
de televisão. Trata-se de um revolucionário do PFL. Nem o
PCO chega a tanto. Borges mudou a forma de apresentar
o tempo. Inventou o besteirol meteorológico. Ninguém tem
mais credibilidade do que ele. O sujeito diz que vai chover
e chove. Isso mostra também a sabedoria e o alto de grau
de conscientização do eleitor gaúcho. Eu me orgulho cada
vez mais do Rio Grande. Como ser contra alguém que
anuncia a chegada da primavera? Como não recompensar
alguém cuja trajetória política se anuncia como um céu
de brigadeiro?
Eu sou louco por surpresas eleitorais e por erros de
pesquisa. Adoro quando as previsões estatísticas não funcionam.
Isso me faz crer que o Internacional ainda será
campeão brasileiro neste ano. Mas melhor ainda é ver todas
as previsões moralizadoras da mídia escorrerem pelo
ralo. Os comentaristas nunca acertam. Deviam se limitar
a falar do tempo. Se houve renovação na política, foi para
pior. Maluf, Clodovil e Collor são as principais novidades
no Congresso Nacional. Agora, vai! Enéas confirmou sua
presença essencial. Querem prova maior de que o eleitor
sabe votar? Seria justo deixar Paulo Maluf fora da época
mais corrupta da política brasileira? Claro que não. A Nação
perderia um grande especialista no assunto.
Os bandalhos do PT também tiveram contrato renovado,
entre eles João Paulo, José Genoino e Antonio Palocci.
O eleitor brasileiro não tem preconceitos ideológicos
nem delírios moralistas, exceto os de classe média. Nosso
lema é: se há corrupção, somos a favor. É tudo uma questão
de preço. Finalmente, o nosso eleitor aprendeu a lição
e passou a votar como fazem os empresários esclarecidos:
pragmaticamente. Por interesse. Sem cair em ilusões,
ideologias e promessas utópicas. Depois dessa eleição, temos
certeza de que não somos inferiores a ninguém. O
eleitor é o perfeito idiota universal. Essa é a sua suprema
forma de inteligência. É como o tempo: não tem erro.


juremir@correiodopovo.com.br
Publicado no Correio do Povo, Pg4 04.10.2006

07 outubro, 2006

A VERDADE ESTÁ NA CARA...

A VERDADE ESTÁ NA CARA, MAS NÃO SE IMPÕE:
UM PSICOPATA LEVA À PSICOSE COLETIVA.
( ARNALDO JABOR )


O que foi que nos aconteceu? No Brasil, estamos diante de acontecimentos inexplicáveis, ou melhor, "explicáveis" demais. Toda a verdade já foi descoberta, todos os crimes provados, todas as mentiras percebidas. Tudo já aconteceu e nada acontece. Os culpados estão catalogados, fichados, e nada rola. A verdade está na cara, mas a verdade não se impõe.Isto é uma situação inédita na História brasileira. Claro que a mentira sempre foi a base do sistema político, infiltrada no labirinto das
oligarquias, claro que não esquecemos a supressão, a proibição da verdade durante a ditadura, mas nunca a verdade foi tão límpida à nossa frente e, no entanto, tão inútil, impotente, desfigurada.

Os fatos reais: com a eleição de Lula, uma quadrilha se enfiou no governo e desviou bilhões de dinheiro público para tomar o Estado e ficar no poder 20 anos. Os culpados são todos conhecidos, tudo está decifrado, os cheques assinados, as contas no estrangeiro, os tapes , as provas irrefutáveis, mas o governo psicopata de Lula nega e ignora tudo. Questionado ou flagrado, o psicopata não se responsabiliza por suas ações. Sempre se acha inocente ou vítima do mundo, do qual tem de se vingar. O outro não existe para ele e não sente nem remorso nem vergonha do que faz. Mente compulsivamente, acreditando na própria mentira, para conseguir poder. Este governo é psicopata!!! Seus membros riem da verdade, viram-lhe as costas, passam-lhe a mão nas nadegas.
A verdade se encolhe, humilhada, num canto. E o pior é que o Lula,
amparado em sua imagem de "povo", consegue transformar a Razão em vilã, as provas contra ele em acusações "falsas", sua condição de cúmplice e comandante em "vítima".E a população ignorante engole tudo. Como é possível isso? Simples: o Judiciário paralítico entoca todos os crimes na fortaleza da lentidão e da impunidade. Só daqui a dois anos serão julgados os indiciados - nos comunica o STF.Os delitos são esquecidos, empacotados, prescrevem. A Lei protege os
crimes e regulamenta a própria desmoralização. Jornalistas e formadores de opinião sentem-se inúteis, pois a indignação ficou supérflua. O que
dizemos não se escreve, o que escrevemos não se finca, tudo quebra diante do poder da mentira desse governo.

Sei que este é um artigo óbvio, repetitivo, inútil, mas tem de ser escrito....
Está havendo uma desmoralização do pensamento. Deprimo-me: "Denunciar para quê, se indignar com quê? Fazer o quê?". A existência dessa estirpe de mentirosos está dissolvendo a nossa língua.
Este neocinismo está a desmoralizar as palavras, os raciocínios. A língua
portuguesa, os textos nos jornais, nos blogs, na TV, rádio, tudo fica
ridículo diante da ditadura do lulo-petismo .. A cada cassado perdoado, a cada negação do óbvio, a cada testemunha, muda, aumenta a sensação de que as idéias não correspondem mais aos fatos!
Pior: que os fatos não são nada - só valem as versões, as manipulações. No último ano, tivemos um único momento de verdade, louca, operística,
grotesca mas maravilhosa, quando o Roberto Jefferson abriu a cortina do
país e deixou-nos ver os intestinos de nossa política. Depois surgiram
dois grandes documentos históricos: o relatório da CPI dos Correios e o
parecer do procurador-geral da República. São verdades cristalinas, com
sol a pino. E, no entanto, chegam a ter um sabor quase de "gafe".
Lulo-petistas clamam: "Como é que a Procuradoria Geral, nomeada pelo Lula, tem o desplante de ser tão clara! Como que o Osmar Serraglio pode ser tão explícito, e como o Delcídio Amaral não mentiu em nome do PT?
Como ousaram ser honestos?".Sempre que a verdade eclode, reagem. Quando um juiz condena rápido, é chamado de "exibicionista". Quando apareceu aquela grana toda no Maranhão (lembram, filhinhos?), a família Sarney reagiu ofendida com a falta de"finesse" do governo de FH, que não teve a delicadeza de avisar que a polícia estava chegando...Mas agora é diferente. As palavras estão sendo esvaziadas de sentido. Assim como o stalinismo apagava fotos, reescrevia textos para coonestar seus crimes, o governo do Lula está criando uma língua nova, uma novi-língua empobrecedora da ciência política, uma língua esquemática, dualista, maniqueísta, nos preparando para o futuro político simplista que está se consolidando no horizonte. Toda a complexidade rica do país será transformada em uma massa de palavras de ordem, de preconceitos ideológicos movidos a dualismos e oposições, como tendem a fazer o populismo e o simplismo. Lula será eleito por uma oposição mecânica entre ricos e pobres, dividindo o país em "a favor" do povo e "contra", recauchutando significados que não dão mais conta da circularidade do mundo atual. Teremos o "sim" e o "não", teremos a depressão da razão de um lado e a psicopatia política de outro, teremos a volta da oposição mundo x Brasil, nacional x internacional. A esquematização dos conceitos, o empobrecimento da linguagem visa à formação de um novo ethos político no país, que favoreça o voluntarismo e legitime o governo de um Lula 2 e um Garotinho depois. Assim como vivemos(por sorte...) há três anos sem governo algum, apenas vogando ao vento da bonança financeira mundial, só espero que a consolidação da economia brasileira resista ao cerco político-ideológico de dogmas boçais e impeça a desconstrução antidemocrática. As coisas são mais democráticas que os homens. Alguns otimistas dizem: "Não... este maremoto de mentiras nos dará uma fome de verdades!". Não creio. Vamos ficar viciados na mentira corrente, vamos falar por antônimos.
Ficaremos mais cínicos, mais egoístas, mais burros. O Lula reeleito será a prova de que os delitos compensaram. A mentira será verdade, e a novi-língua estará consagrada. É amigos. Este texto deve se transformar na maior corrente que a internet já viu. Talvez assim, possamos nós, que não somos burros não, mais uma vez salvar o Brasil. Passe para quantas pessoas você puder. Se você é brasileiro e gosta de seu País, faça algo por ele. Essa é a hora.

20 setembro, 2006

NECESSIDADE DE REFORMA

Vivemos tempos tormentosos.
Há guerras em várias partes do mundo.
Em nosso país, o cenário político e social é desolador.
Entre denúncias de corrupção e de venalidade, resta pouca fé nos homens públicos.A impunidade instiga novos desmandos.
O povo se mira nas figuras eminentes e procura encontrar no comportamento destas, justificativa para seus próprios equívocos.
Levar vantagem parece um objetivo que se generaliza pelo corpo social. A idéia do sucesso como resultado de um esforço continuado e metódico torna-se pouco sedutora.
O famoso “jeitinho brasileiro” não mais significa criatividade, mas esperteza e falta de caráter.
Muitos se indagam: Haverá futuro para uma sociedade assim constituída? A história nos fornece inúmeros exemplos de civilizações que se corromperam. Em Roma, no período do Império, os costumes e os valores degeneraram. O filósofo e jurista Marco Túlio Cícero era profundamente angustiado com esse estado de coisas.
Deixou inúmeros escritos que denotam sua preocupação com a corrupção que
invadia a vida pública romana.
Ele se preocupava com medidas populistas freqüentemente adotadas pelos governantes.
Tais medidas atendiam a caprichos da multidão, mas sem educá-la ou destiná-la a trabalho útil.
Quem trabalhava era fortemente tributado, a fim de que largos benefícios fossem concedidos pelo estado.
Era, já naqueles tempos, a prática do assistencialismo, às custas dos contribuintes.
Mas o que mais indignava Cícero era a corrupção e a troca de favores envolvendo o dinheiro público. Ao refletir sobre os vínculos fraternos, ele afirmou: “A primeira lei da amizade é não pedir nem conceder nada de vergonhoso”.
Disse ser uma desculpa indigna, em qualquer falta, admitir que se agiu em favor de um amigo.
Bem se percebe a semelhança com a situação brasileira atual.
Ainda vivemos sob o regime do compadrio.
O dinheiro público é rateado entre alguns, como se fosse particular.
A humanidade evoluiu muito sob o prisma intelectual e científico, nesses dois milênios.
Mas, embora alguns avanços, permanece titubeante no que tange à moralidade.
Em conseqüência, o mundo segue conturbado e carente de paz.
Na verdade, todos sofremos em razão da falta de ética.
A inadimplência faz com que os preços de produtos e serviços sejam maiores.
O desvio do dinheiro público dificulta a construção de creches, escolas e hospitais.
Se queremos viver num mundo melhor, devemos nos empenhar em promover uma reforma ética.
E toda mudança começa no indivíduo.
Para que a sociedade melhore, cada um deve esforçar-se em se aprimorar.
É imperativa a adoção de novos hábitos.
Chega de procurar levar vantagem, de fugir dos próprios deveres.
Basta de mentir, fraudar, sonegar e trair.
O patrimônio público é sagrado e todos são responsáveis por ele.
O dinheiro público não existe para ser apropriado por alguns, mas para atender demandas relevantes da coletividade.
Impõe-se a severa fiscalização de sua utilização, como o cumprimento de um
dever.
Quando formarmos uma sociedade consciente de seus deveres, apenas por isso
já desfrutaremos de grande tranqüilidade.
Pensemos nisso.

DP 29/08/2006.
Equipe de Redação do Momento Espírita.

18 setembro, 2006

QUO USQUE TANDEM ABUTERE, CATILINA, PATIENTIA NOSTRA?

Já não podes viver mais tempo conosco.

Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há-de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas?
Oh tempos, oh costumes! O Senado tem conhecimento destes fatos, o cônsul tem-nos diante dos olhos; todavia, este homem continua vivo! Vivo?! Mais ainda, até no Senado ele aparece, toma parte no conselho de Estado, aponta-nos e marca-nos, com o olhar, um a um, para a chacina. E nós, homens valorosos, cuidamos cumprir o nosso dever para com o Estado, se evitamos os dardos da sua loucura. À morte, Catilina, é que tu deverias, há muito, ter sido arrastado por ordem do cônsul; contra ti é que se deveria lançar a ruína que tu, desde há muito tempo, tramas contra todos nós.
Pois não é verdade que uma personagem tão notável como era Públio Cipião, pontífice máximo, mandou, como simples particular, matar Tibério Graco, que levemente perturbara a constituição do Estado? E Catilina, que anseia por devastar a ferro e fogo a face da terra, haveremos nós, os cônsules, de o suportar toda a vida? E já não falo naqueles casos de outras eras, como o fato de Gaio Servílio Aala ter abatido, por suas próprias mãos, Espúrio Mélio e, que alimentava ideias revolucionárias. Havia, havia outrora nesta República, uma tal disciplina moral que os homens de coragem puniam com os mais severos castigos um cidadão perigoso do que o mais implacável dos inimigos. Temos um decreto do Senado contra ti, Catilina, um decreto rigoroso e grave; não é a decisão clara nem a autoridade da Ordem aqui presente que falta à República; nós, digo-o publicamente, nós, os cônsules, é que faltamos.
.....................................................................................

Há, todavia, nesta Ordem de senadores, alguns que, ou não vêem aquilo que nos ameaça, ou fingem ignorar aquilo que vêem; estes, pela moleza das suas decisões, alimentaram a esperança de Catilina e deram força à conjuração nascente, não acreditando nela; e, por sua influência, muitos; não apenas os perversos, mas ainda os mal informados, diriam, se eu tivesse punido Catilina, que o tinha feito com crueldade e tirania.

07 setembro, 2006

PÁTRIA MINHA

Pátria Minha

Vinicius de Moraes


A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."


Texto extraído do livro "Vinicius de Moraes - Poesia Completa e Prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 383.

03 setembro, 2006

SABEDORIA

SABEDORIA

Conta-se que num país longínquo, há muitos séculos, um rei se sentiu intrigado com algumas questões. Desejando ter resposta para elas, resolveu estabelecer um concurso do qual todas as pessoas do reino pudessem participar.
O prêmio seria uma enorme quantia em ouro, pedras preciosas, além de títulos de nobreza. Seria premiado com tudo isto quem conseguisse responder a três questões:

Qual é o lugar mais importante do mundo? - Qual é a tarefa mais importante do
mundo? - Quem é o homem mais importante do mundo?

Sábios e ignorantes, ricos e pobres, crianças, jovens e adultos se apresentaram, tentando responder as três perguntas. Para desconsolo do rei, nenhum deles deu uma resposta que o satisfizesse.
Em todo o território, apenas um único homem não se apresentou para tentar responder
os questionamentos. Era alguém considerado sábio, mas a quem não importavam as fortunas nem as honrarias da terra.
O rei convocou esse homem para vir à sua presença e tentar responder suas indagações. E o velho sábio respondeu a todas:

- O lugar mais importante do mundo é aquele onde você está. O lugar onde você mora, vive, cresce, trabalha e atua é o mais importante do mundo. É ali que você deve ser útil, prestativo e amigo, porque este é o seu lugar.
- A tarefa mais importante do mundo não é aquela que você desejaria executar, mas aquela que você deve fazer.
- Por isso, pode ser que o seu trabalho não seja o mais agradável e bem remunerado do mundo, mas é aquele que lhe permite o próprio sustento e da sua família. É aquele que lhe permite desenvolver as potencialidades que existem dentro de você. É aquele que lhe permite exercitar a paciência, a
compreensão, a fraternidade.
- Se você não tem o que ama, importante que ame o que tem. A mínima tarefa é importante. Se você falhar, se se omitir, ninguém a executará em seu lugar, exatamente da forma e da maneira que você o faria.
E, finalmente, o homem mais importante do mundo é aquele que precisa de você, porque é ele que lhe possibilita a mais bela das virtudes: a caridade.
- A caridade é uma escada de luz. E o auxílio fraternal é oportunidade iluminativa. É a mais alta conquista que o homem poderá desejar.

O rei, ouvindo as respostas tão ponderadas e bem fundamentadas, aplaudiu,
agradecido. Para sua própria felicidade, descobrira um sentido para a sua vida, uma
razão de ser para os seus últimos anos sobre a Terra.

***

Muitas vezes pensamos em como seria bom se tivéssemos nascido em um país com menos inflação, com menos miséria, sem taxas tão altas de desemprego, gozando de melhores oportunidades.
Outras vezes nos queixamos do trabalho que executamos todos os dias, das tarefas que temos, por acha-las muito ínfimas, sem importância. Desejamos que determinadas pessoas, importantes, de evidência social ou
financeira pudessem estar ao nosso lado para nos abrir caminhos.
Contudo, tenhamos certeza: estamos no lugar certo, na época correta, com as
melhores oportunidades, com as pessoas que necessitamos à nossa evolução.

Equipe de Redação do Momento Espírita, baseado em texto intitulado Sabedoria, inserido no Mensário Espírita “O sol nascente”(set 2001) no.390, ano XXXII ( sem menção a autor).

RETORNO AO BRASIL

Juremir Machado da Silva

Retorno ao Brasil

Andei distante do noticiário sobre o Brasil. Estive muito ocupado acompanhando o Inter na epopéia da conquista da Libertadores da América e relendo os contos de Guy de Maupassant. Mas, agora, acordei. Estou de volta, como diria Umberto Eco, à irrealidade cotidiana. Meu retorno foi assim. De repente, eu abri os olhos e fiquei sabendo que a Justiça havia mandado soltar o famoso Papagaio (o semi-aberto para esse tipo de bandido tem valor de alvará de soltura) e mandado prender (para que ele se explicasse) um menino de cinco anos que jogara uma pedra num carro quando tinha três anos de idade. Gostei de saber disso.

É preciso cortar o mal pela raiz, matar a serpente na casca, torcer o pepino em pequeno. Nossa justiça, pelo jeito, resolveu agir preventivamente. Afinal, um perigosíssimo e indomável garotinho desses, se não for tolhido nos primeiros golpes, continuará atentando contra o patrimônio alheio ao longo da vida. Sem dúvida alguma, foi uma medida justa, sábia e razoável. Já importamos as cotas dos Estados Unidos, trazendo junto uma forma de racismo que não tínhamos. Agora, copiamos os processos judiciais contra bandidos infantis. É um avanço: da fraude à fralda. Estamos cada vez mais desenvolvidos. Quanto à fuga do Papagaio, que podemos fazer? A lei está aí para ser cumprida. Ao menos, isso é o que se diz sempre que algo dá errado.

Adoro a unidade de procedimentos da Justiça brasileira. Um juiz interpreta a lei num sentido, o outro interpreta no sentido oposto. Somos os campões da hermenêutica jurídica. Nossa Justiça, claro, não faz diferença entre jovens e velhos ou ricos e pobres. Disso, obviamente, ninguém duvida. Em São Paulo, por mera coincidência, um João, negro, está pagando pelo crime de outro João, branco. Apesar desse insignificante detalhe de pigmentação de pele, o negro, que roubou R$ 10,00, continua em cana, pois é homônimo do outro. A justiça já sabe que errou. Mas o João Negro ainda não foi solto.

A pressa é inimiga da justiça. Enquanto isso, Pimenta Neves, o jornalista branco que matou a namorada a tiros, pelas costas, julgado e condenado, continua em liberdade. Lei é lei. Nada a ver com privilégios ou com interpretações maleáveis. O choque que, realmente, me devolveu à banalidade da existência, contudo, foi outro. Algo mais filosófico e transcendental. Uma espécie de estranhamento antropológico radical e inexorável. Saí de mim. Reabri os olhos e estava passando o horário eleitoral gratuito na televisão. Senti uma forte emoção cívica e patriótica. Bravamente, olhei até o fim. Sou um verdadeiro cidadão. Mereço uma medalha de honra ao mérito. Lembrei-me dos tempos em que a ditadura nos obrigava a ter aulas de Moral e Cívica. Um pouco mais e eu cantava o hino nacional, com voz de Fafá de Belém, em posição de sentido sob o cobertor.

Os candidatos prometem tudo e não explicam como fazer coisa alguma. O tempo é curto. É uma questão de confiança. Na medida em que os políticos nunca nos decepcionaram, salvo por um mensalão aqui, uma sanguessuga ali, podemos apostar neles de olhos fechados. Até aí nenhuma novidade. Fiquei tão impactado pelo horário eleitoral que agora não perco nenhuma edição. Quando saio, deixo gravando. É fantástico! Como é que eles conseguem encher todo aquele espaço sem dizer nada? Ouvi todos os candidatos à Presidência da República e ainda não conheço uma só proposta concreta, exeqüível e detalhada capaz de alterar algo na realidade brasileira dos próximos anos. Rapidamente, porém, descobri uma qualidade no discurso de qualquer candidato. Uma qualidade que os isenta de muitos defeitos do passado e os habilita a nos prometer um belo futuro mesmo que não consigam mostrar como chegar lá.

Essa qualidade dos candidatos no horário eleitoral gratuito da televisão é cristalina e evidente: qualquer um deles fazendo promessas vazias é melhor do que um monólogo de Regina Duarte em -Páginas da vida- refletindo sobre a existência. Na sociedade -midíocre-, discurso de candidato também deve dar audiência e ter valor de entretenimento de massa. Se continuar assim, o horário eleitoral ainda vai superar -Zorra total- em senso de humor popular. Enfim, resta uma pergunta inquietante: se os candidatos são todos nulos por que os votos também não poderiam ser?

E-mail: juremir@correiodopovo.com.br
Correio do Povo
Porto Alegre - RS - Brasil

27 agosto, 2006

SÍNDROME DA BRANCA DE NEVE

21.08, 12h00
por Percival Puggina, escritor

Apesar de sua imensa significação no destino dos povos, a questão dos consensos permanece como tema restrito ao debate acadêmico. Não deveria ser assim porque o assunto é muito importante. Consensos corretos sobre coisas relevantes produzem resultados positivos e consensos errados determinam inevitáveis desastres. Sob o ponto de vista político, não hesito em afirmar que o mais danoso de nossos consensos se expressa na idéia de que as instituições nacionais não funcionam. Bem ao contrário, elas funcionam. E grande parte dos males que observamos decorre de seu funcionamento. Cito alguns dos mais evidentes: a transformação da administração pública em moeda de troca dos acordos, a hipertrofia do Estado, a politização do judiciário e a judiciarização da política, a irresponsabilização dos parlamentos, a impunidade geral, os muitos instrumentos de corrupção cristalizados nas práticas políticas, e o estímulo institucional à representação política dos grupos de interesse.

O lamentável consenso segundo o qual as instituições que temos poderiam operar dando origem a resultados diferentes e melhores, imobiliza a sociedade em relação à necessária reforma institucional e nos leva a esperar que um dia, com outros figurantes, as coisas possam andar melhor. Com isso, fulanizamos o debate político, desprezamos a imperiosa reflexão sobre as relações de causa e efeito que determinam os fatos da vida do país, e empobrecemos partidária, política, cultural, social e economicamente.

Se instituições democráticas devem ser como as que adotamos, e que para resolver nossos problemas basta fazê-las funcionar, cabe indagar: e como ficam a Alemanha, Itália, França, Holanda, Bélgica, Noruega, Suécia, Dinamarca, Espanha, Portugal, Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda, Austrália, Canadá, Japão? Não são democracias? Não adotam outros padrões e funcionam melhor do que nós? Pois é. Mas persistimos na convicção de que democracia de qualidade é a que se obtém com o bem sucedido modelo que utilizamos no Brasil, na Bolívia, no Paraguai, na Argentina, na Venezuela, na Colômbia, no Peru, no Equador e tutti quanti.

À semelhança de todos os nossos vizinhos, tornamo-nos portadores da Síndrome da Branca de Neve. Alimentamo-nos com as maçãs envenenadas que frutificam do péssimo modelo que adotamos. Entramos em letargia sobre as necessárias mudanças. E ficamos esperando o príncipe que nos conduzirá, na garupa de seu cavalo branco, para o reino encantado da boa governança. Enquanto não aparece esse nobre cavalheiro que estamos aguardando há mais de um século, nos empanturramos de análise marxista. Vamos lendo Frei Betto e Eduardo Galeano e pondo a culpa nos perversos exploradores da nossa alva e dormente inocência: o capitalismo, a globalização, o latifúndio, o FMI, o Consenso de Washington, o neoliberalismo, o Bush, o Império (para falar como o adoecido Fidel Castro) e por aí afora. A cada ano esse indigente discurso escolhe a Rainha Má da vez.

www.diegocasagrande.com.br

ESTADO LARÁPIO

ESTADO LARÁPIO
18.08, 18h06
por Maria Lucia Victor Barbosa, socióloga

Será inútil dizer que sempre houve corrupção. Será cínico declarar que se sempre foi assim todos devem continuar a ter caixa dois, roubar, delinqüir, corromper, aumentar riquezas através da corrupção como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Ocorre que, neste governo do partido que havia prometido durante anos que viria para mudar, chegamos ao auge do amoralismo. A sensação é a de que banditismo foi institucionalizado, alcançando os Poderes constituídos em suas instâncias mais altas.

Em recente entrevista à TV Globo, o presidente da República, num daqueles atos falhos que traem o subconsciente afirmou: “em meu governo combati a ética”. De fato Sua Excelência pode se gabar, começando com o indefectível “nunca em nenhum governo”, e acrescentar: roubou-se tanto, mentiu-se tanto, enganou-se tanto.

O impressionante desses quase quatro anos de nossa história é que a corrupção abrigada no próprio Estado nunca foi tão deslavada. Sem o mínimo pudor a roubalheira é escancarada nos Três Poderes, mina instituições antes consideradas impolutas, coopta entidades que não só se calam como participam do desregramento generalizado.

Não há mais uma clara distinção entre bandidos e autoridades e isso foi esfregado na cara dos deputados que argüiam o mega facínora Marcola. Ele debochou de mensaleiros e sanguessugas com o escárnio de chefão poderoso que instituiu um Estado dentro do Estado frouxo, corrupto, incompetente, quando não conivente com os companheiros do crime que agora apelam para jargões de esquerda para justificar seus atos. Afinal, nessas plagas latino-americanas quem é de esquerda é do bem. Isto foi inculcado durante anos nas mentes dos estudantes universitários, nos meios eclesiásticos, artísticos, intelectuais, entre profissionais liberais. Assim, se o PCC é de esquerda, logo é do bem.

Entretanto, depois de fazer curvar a mais poderosa rede de televisão do país que exibiu um vídeo com indivíduos encapuzados se queixando das prisões, exigência para que o jornalista da Globo seqüestrado fosse solto, não é de se duvidar que em breve o PCC consiga nosso Aldo Moro, seqüestrado em 1978 pelas Brigadas Vermelhas e executado quando o governo italiano se recusou a soltar brigadistas.

Em Terra de Macunaíma, porém, o provável é que evolua a obediência aos bandidos da parte das autoridades. Num cenário possível presídios de segurança máxima serão abolidos. Uma lei, quem sabe, decretará o fim dos crimes hediondos. Conceder-se-á hábeas corpus aos criminosos de alta periculosidade. A eles, e apenas a eles serão oferecidos direitos humanos, pois, coitados, são pessoas sofridas. E se o governo de Luiz Inácio se recusou a declarar as Farc como terroristas, conforme pedido do presidente colombiano, por que nosso PCC seria considerado como tal? Enfim, se confirmará em grande estilo que no Brasil o crime compensa.

De outro lado continuarão a dançar a dança da impunidade mensaleiros, sanguessugas, larápios de recursos públicos, golpistas escolados nas manhas do suborno, especialistas na arte de fraudar licitações, malandros adestrados em superfaturamento, sonegadores e formadores de quadrilhas, corruptos e corruptores a dobrar fortunas resguardadas em paraísos fiscais. Reeleitos muitos deles continuarão na doce vida que o poder concede a quem o alcança e nele se mantém. Leis e impostos apenas para eleitores, muitos dos quais dizem nas pesquisas: “eu faria a mesma coisa se chegasse lá”.

Diante desse estado de deterioração moral a que se chegou vale perguntar: que povo é esse que aceita docilmente sustentar com pesados impostos os luxos da corte? Que encara como natural a corrupção das mais altas autoridades? Que é presa fácil da propaganda enganosa?

Entendemos tudo sobre futebol. Temos na ponta da língua as escalações de todas as Copas do Mundo. Sabemos de cor e salteado os gols que nelas foram feitos pelo Brasil. Mas não nos lembramos em qual vereador ou deputado votamos. Elegemos qualquer candidato que sabe contar piadas. Achamos chatos os candidatos sérios, inteligentes preparados, experientes, dignos porque estes não têm a nossa cara. O reino Brasil apodreceu e nem nos damos conta ou isso não nos importa. Afinal, como diz o presidente da República, todo mundo tem caixa dois e se todo mundo tem podemos ter também, Depois é só dizer: não sei, não vi, não estou nem aí.

Quando o mau exemplo vem de cima, quando não há mais Poderes, instituições e entidades de classe com os quais se contar instala-se a anomia, intensifica-se o individualismo, aumenta a impunidade e com ela a violência. Contente o povo samba e canta: “me engana que eu gosto”.

Cada vez mais me convenço de que Nelson Rodrigues tinha razão quando afirmou: “subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos”.